Eu passei o dia pensando sobre nós, os brasileiros, e sobre o estado de coisas em que nós, os brasileiros, nos metemos.

A busca por uma imagem mental que pudesse explicar um pouco de tudo me transportou a Paris, há 7 de janeiro de 2015. Naquele dia, dois jovens armados matavam 12 pessoas num jornal da capital francesa.

A triste memória, como um gatilho, disparou uma lembrança ainda mais distante. Em 7 de janeiro de 2011, o Irã proibia a circulação de livros de um estrangeiro no país.

Nesse exercício de compreender a maneira como as coisas são me veio uma questão: qual o papel do esquecimento?

Apesar de recente, devemos sempre lembrar que o ataque de 7 de janeiro na Europa ao Charlie Hedbo pelos irmãos Saïd e Chérif que teve como motivação um suposto insulto ao profeta Maomé, foi repudiado pela maioria de nós.

Quando o país do Oriente Médio, em 7 de janeiro, impôs censura ao escritor Paulo Coelho por questões políticas, o Ministério da Cultura do Brasil pediu explicações ao governo de Teerã.

Precisamos, como na sociologia, estabelecer entre nós um “espaço de memória”, um culto aos acontecimentos passados.

No último dia 07 de janeiro, um desembargador do Rio de Janeiro proibiu a veiculação de um vídeo do grupo Porta dos Fundos no canal de streaming Netflix. Por causa de um “Jesus gay”, o juiz mandou tirar a obra do ar alegando que seria o “mais adequado e benéfico para a sociedade brasileira”.

Como se o passado não nos cobrasse passagem, inúmeras pessoas que aderiram à solidária campanha #JeSuiCharlie e as que exigiram do governo brasileiro medidas duras contra o obscurantismo iraniano, esquecidamente comemoraram a decisão da Justiça fluminense.

Que tenhamos mais que 7 vidas e muitos janeiros de vivas memórias.

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