A entrevista concedida pelo ex-prefeito de Barreiras, Zito Barbosa, à rádio Oeste FM, na última semana de 2025, foi reveladora — não apenas pelo conteúdo, mas pelo simbolismo. Ao ir ao embate direto com adversários políticos e assumir para si a defesa de decisões centrais da atual gestão, Zito deixou claro: ele se vê, ainda hoje, como o verdadeiro chefe do Executivo municipal.
Não se trata apenas de retórica política. Ao chamar para si a responsabilidade pelas escolhas do governo Otoniel Teixeira, especialmente no que diz respeito à política fiscal e financeira, Zito reforça a ideia de continuidade absoluta — sem mediações, sem autocrítica e, sobretudo, sem assumir os custos sociais e geracionais desse modelo.
O ponto central de sua fala foi a defesa enfática da política de endividamento do município, inaugurada em seu primeiro mandato. Segundo o ex-prefeito, novos empréstimos seriam plenamente justificáveis diante do crescimento da arrecadação. O argumento, embora recorrente, ignora um dado incontornável: dívida não se mede apenas pela capacidade de contrair crédito, mas pelo impacto que ela produz no presente e, principalmente, no futuro.
Em 2017, quando assumiu a Prefeitura, Zito encontrou uma dívida pública em torno de R$ 300 milhões. Oito anos depois, esse valor foi triplicado, aproximando-se da casa de R$ 1 bilhão. Uma conta que não será paga por ele — nem por seu sucessor imediato —, mas empurrada para as próximas gerações de barreirenses.
No primeiro mandato, Zito governou por quatro anos com cinco orçamentos à disposição, beneficiado não apenas pelas receitas próprias e transferências constitucionais, mas também por recursos extraordinários, como o precatório do Fundef. No segundo governo, para sustentar o mesmo ritmo de investimentos e inaugurações, a alternativa escolhida foi recorrer de forma sistemática ao sistema bancário.
Essa política do endividamento permanente já começou a cobrar seu preço. Dados preliminares do Tesouro Nacional indicam que, apenas em 2025, Barreiras desembolsou cerca de R$ 100 milhões em juros e amortizações da dívida. Recursos que deixam de ir para saúde, educação, infraestrutura e políticas sociais para alimentar um passivo crescente.
Hoje, por mais que o prefeito Otoniel Teixeira tente imprimir sua própria marca administrativa, a realidade orçamentária é dura: o espaço fiscal está comprimido. Ainda assim, a resposta tem sido insistir na mesma fórmula — agora com a tentativa de um novo empréstimo de R$ 140 milhões, aprofundando o ciclo da política do endividamento eterno.
Na tentativa de se justificar, Zito recorreu a um discurso já conhecido: o da perseguição política. Alegou que, durante seus governos, Barreiras teria sido preterida pelos governos do PT na Bahia. O problema é que os fatos não sustentam integralmente essa narrativa. Em 2016, logo após as eleições municipais em que ele ganhou, Zito e a então vice-prefeita Karlúcia Macedo foram recebidos na residência do governador Rui Costa. Daquele encontro resultaram recursos para obras de drenagem no Morada da Lua e Loteamento São Paulo — recursos que, meses depois, já sob sua gestão, finalmente solucionaram problemas históricos daqueles bairros.
Outro momento emblemático da entrevista ao jornalista Marcelo Ferraz foi o ataque ao líder da oposição, Danilo Henrique. Visivelmente incomodado, Zito disputou o protagonismo por um convênio do Novo PAC para a construção de uma praça esportiva, afirmando ter sido o responsável direto pela liberação do investimento. Danilo, por sua vez, sustenta — e documenta — que os recursos só se viabilizaram graças à sua articulação junto ao ministro dos Esportes, André Fufuca, por meio de emenda do deputado federal João Leão. O próprio ministro confirmou publicamente essa versão.
Há ainda um dado curioso: dos 13 projetos cadastrados pela gestão Zito Barbosa, apenas esse foi efetivamente liberado.
O quadro que se desenha é de contradição. Zito critica, de forma oportunista, os governos estadual e federal, mas não hesita em receber, executar e inaugurar obras financiadas exatamente por esses entes. Ao mesmo tempo, defende um modelo de gestão que transfere o ônus das escolhas políticas de hoje para as costas das futuras gerações.
No fim das contas, a entrevista escancarou mais do que divergências políticas. Ela levantou uma pergunta incômoda — e necessária: Barreiras está sendo governada olhando para o futuro ou prisioneira de um passado caro que insiste em se perpetuar?
Em anexo o balanço da dívida pública de Barreiras em 2016 (último ano da gestão Antonio Henrique) e do ano de 2024 (último ano da gestão Zito Barbosa)


