Em fevereiro de 2024, escrevi para o ZDA o artigo “Com o grupo rachado, Zito testa nome de Otoniel”.

Naquele momento, a análise partia de uma constatação que, à época, ainda parecia uma hipótese: o grupo político liderado pelo então prefeito Zito Barbosa começava a dar sinais de desgaste, e a escolha de Otoniel Teixeira como seu sucessor seria um teste importante para medir a capacidade de transferência de votos e de manutenção das alianças que haviam sustentado o projeto político de Barbosa.

Naquele texto, procurei reconstruir a trajetória eleitoral de Zito em Barreiras.

Em 2012, quando disputou pela primeira vez a Prefeitura, obteve cerca de 32% dos votos e terminou em segundo lugar. Em 2016, depois de ampliar suas alianças e incorporar forças políticas que estavam do outro lado da disputa anterior, venceu a eleição com aproximadamente 49% dos votos. Em 2020, no auge de sua força política, reuniu uma ampla frente e alcançou impressionantes 70% dos votos.

A trajetória era clara, eleição após eleição, Zito conseguia ampliar seu campo de alianças, agregar adversários e transformar essa capacidade de composição em votos.

O problema, apontado naquele artigo, era saber até quando essa fórmula funcionaria.

Passado esse período e observados os resultados das urnas do último domingo, talvez seja possível responder à pergunta com mais segurança: o que vimos foi o despoder de Zito Barbosa.

E despoder, aqui, não significa desaparecimento político. Zito continua sendo a maior liderança local, com influência, estrutura e capacidade de articulação. O que mudou foi outra coisa, talvez mais relevante, a dimensão de sua força eleitoral deixou de ser a mesma.

De 70% para uma nova realidade

O poder político, quase sempre, começa a diminuir antes de desaparecer.

Foi assim que Zito construiu sua trajetória em Barreiras: agregando forças, incorporando lideranças e ampliando sua base. O mesmo processo, agora em sentido contrário, parece estar acontecendo.

A eleição mais recente mostrou que aquela gigantesca maioria de 2020 não existe mais.

A diferença de Zito para Danilo Henrique foi de apenas 3800 votos – muito abaixo do que esperaravam seus correligionários.

Outro dado merece atenção.

A votação de ACM Neto em Barreiras também caiu em relação à eleição de 2022.

Naquele ano, no segundo turno, o candidato apoiado por Zito obteve 44.943 votos no município. Agora, foram 43.434 votos.

São mais de 1.500 votos a menos.

É verdade que eleições diferentes não podem ser comparadas de maneira absolutamente linear. São disputas com circunstâncias, candidatos, conjunturas e níveis de mobilização distintos.

Mas o número não deixa de ser um sinal.

E política, no fim das contas, é também uma questão de números.

Danilo Henrique e a prova de resistência

Se a eleição mostrou o enfraquecimento relativo de Zito, também revelou algo que talvez seja ainda mais importante para o futuro político de Barreiras: a resiliência eleitoral de Danilo Henrique.

Danilo enfrentou duas máquinas poderosas.

Além de uma estrutura de campanha infinitamente menor quando comparada à de seu principal adversário, do outro lado estavam as duas maiores prefeituras da região, Barreiras e Luís Eduardo Magalhães.

Ainda assim, ele conseguiu uma votação expressiva.

Mais do que uma grande soma de votos, Danilo sobreviveu a uma disputa em condições adversas e saiu dela politicamente maior.

Isso tem um significado especial.

Na política, nem sempre quem vence uma eleição é necessariamente quem mais cresce.

Danilo se consolida como principal nome das Oposições em Barreiras, com uma base eleitoral própria e capacidade de diálogo com diferentes setores do campo adversário.

E há um dado que reforça essa leitura.

O desempenho dele também teve reflexos sobre a votação de seu pai, o deputado Antônio Henrique Júnior, que obteve quase 5 mil votos a mais em Barreiras em comparação com 2022 – apesar de não ter conseguido renovar o mandato.

Isso demonstra que não se tratou apenas de uma candidatura circunstancial.

Existe um eleitorado que está se formando em torno do grupo.

E, em política, construir uma base própria talvez seja mais importante do que simplesmente vencer uma eleição.

A família Marabá entra no jogo

Outro fenômeno que não pode ser ignorado é a entrada da família Marabá no cenário político de Barreiras.

A votação de Cintya, eleita deputada estadual, foi expressiva e chegou perto de um quarto dos votos válidos no município.

Isso é muito mais do que um resultado eleitoral.

É um aviso.

A família Marabá, que já possui uma força política consolidada em Luís Eduardo Magalhães, começa a demonstrar capacidade de penetração em Barreiras.

E isso significa que o jogo regional também está mudando.

Durante muito tempo, Barreiras funcionou como o principal centro das decisões do Oeste baiano. A cidade continua tendo enorme peso, mas já não é possível pensar a política regional ignorando a força econômica e eleitoral de Luís Eduardo Magalhães.

A aproximação entre os dois municípios, inclusive no campo político, tende a produzir consequências importantes nas próximas eleições.

O que resta de Zito?

Não acabou. Mesmo derrotado.

Seria precipitado afirmar isso.

A pergunta correta é outra: quanto do poder eleitoral de Zito ainda existe e, principalmente, quanto dele pode ser transferido para um novo projeto?

Essa é uma diferença fundamental.

Zito construiu uma trajetória eleitoral extraordinária. Foi capaz de reunir adversários, formar maiorias, vencer duas eleições municipais e eleger seu sucessor.

Mas a política não é patrimônio imóvel.

Alianças envelhecem.

Grupos se dividem.

Lideranças surgem.

Eleitores mudam.

E aquilo que parecia uma fortaleza pode, alguns anos depois, tornar-se apenas uma das forças que disputam o território.

Foi exatamente isso que o último domingo mostrou.

O grupo de Zito continua relevante, mas já não está sozinho no centro do tabuleiro.

E, talvez pela primeira vez em muitos anos, existe uma possibilidade concreta de que as forças adversárias consigam transformar sua fragmentação em unidade política.

2028 começa agora

Ainda faltam dois anos para a próxima eleição municipal.

Parece muito tempo.

Não é.

As eleições municipais começam muito antes do calendário eleitoral. Começam na formação das alianças, na construção das lideranças, na ocupação dos espaços e na capacidade de cada grupo de demonstrar que possui um projeto.

Zito terá de mostrar que ainda tem força para vencer.

Danilo terá de transformar uma votação expressiva em liderança política permanente.

A família Marabá terá de demonstrar se sua votação em Barreiras foi apenas um fenômeno eleitoral pontual ou o início de uma presença política mais permanente.

As demais forças de oposição terão de decidir se preferem continuar disputando espaços individualmente ou se estão dispostas a construir um projeto comum.

Jusmari, Tito e João Felipe, apesar das derrotas, continuam sendo figuras importantes para as disputas futuras. Cada um possui trajetória, grupo, capacidade de articulação e, sobretudo, um patrimônio político que não desaparece com uma eleição. Em uma eleição que promete ser marcada pela necessidade de alianças, essas lideranças podem voltar a ter papel decisivo na composição das forças que disputarão 2028.

No fundo, a eleição do último domingo não encerrou um ciclo.

Ela revelou que um novo ciclo começou.

Em 2020, Zito Barbosa chegou aos 70% dos votos e parecia ter construído uma hegemonia difícil de ser enfrentada.

Hoje, os números contam outra história.

O ex-prefeito continua sendo um ator importante, mas já não controla sozinho o tabuleiro.

As oposições, somadas, já se aproximam — e, em determinados recortes, superam — sua força eleitoral.

A grande questão para 2028 será saber se essa soma de votos será capaz de se transformar em unidade política.

Se for, Barreiras poderá viver uma das eleições mais disputadas de sua história recente.

Se não for, Zito ainda terá espaço para reconstruir sua influência.

Uma coisa, porém, parece evidente: a era das grandes maiorias de Zito ficou para trás.

Ao contrário de 2020, quando parecia haver apenas um grande centro de gravidade na política de Barreiras, o mapa atual mostra que há vários polos de poder, lideranças com capacidade de mobilização e grupos que, dependendo das alianças, podem alterar completamente o resultado de 2028.

A próxima eleição, portanto, não será apenas uma disputa entre nomes.

Será uma disputa pela capacidade de reunir aquilo que hoje está espalhado.

E é justamente por isso que 2028 começa agora.

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