Atletas do Fortaleza protestaram, em 2019, com camisas alusivas a diferença de 14 milhões
O que era para ser um processo de análise de lei da concorrência pedido pelo Fortaleza contra a Turner para exigir a equiparação do pagamento pelos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro com os outros clubes com os quais a emissora tem contrato pode se transformar numa reformulação completa na forma de venda de direitos de transmissão do torneio.
Chamado para analisar se a Turner havia ferido a Lei Federal 12.529/11 ao pagar menos para o Fortaleza em relação a Palmeiras, Internacional, Santos, Athletico, Bahia e Ceará pelos direitos do Brasileirão, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) decidiu agora se debruçar para analisar a forma como são negociados os direitos. A decisão pode mudar radicalmente a forma como os direitos de transmissão são negociados no país há praticamente uma década, quando a implosão do Clube dos 13 levou as equipes a encerrarem o acordo de venda coletiva e optarem por adotar o modelo individual.
Mas para Erick Beting, diretor executivo da Máquina do Esporte, a troca de modelo só virá na “canetada”, por decisão do governo. “A mudança do sistema de vendas de direitos de transmissão no mercado brasileiro só conseguirá ir para a frente se houver uma força de lei para isso. Não, isso não é uma crítica à incapacidade dos clubes de enxergar o óbvio. O Brasil hoje é o país que prefere ficar ao lado de Laos e Lesoto na questão de vendas de direitos de mídia, em vez de seguir o que fazem Inglaterra, Itália e Espanha”, disse.
Beting lembra que desde sempre os clubes maiores e mais fortes tiveram muito mais voz na hora de discutir o contrato de televisão. “No Brasil ou na Europa, a lei do mais forte sempre prevaleceu. Por lá, o estrago provocado por isso foi maior. O predomínio de Barcelona e Real Madrid na Espanha, a força do Olympique de Marseille na França, o triunvirato de Inter, Juventus e Milan na Itália. Tudo isso estava dentro de um sistema que era inquebrável pelos clubes menores”, garante.
O Cade ainda não deu um parecer sobre o processo e também não formalizou a abertura do processo para fazer uma análise sobre o formato ideal de negociação de direitos de transmissão. No ano passado, já houve um parecer do órgão indicando que a Globo não havia discriminado os clubes que fecharam com a Turner para a TV paga nas outras mídias que ela tem contrato. O inquérito, aberto em 2016, não apurou a questão do modelo de negociação.