De muitas maneiras, o futebol brasileiro virou a página de 2014 em 2019.

Como se pudéssemos esquecer, nosso futebol ficou de joelhos com a humilhação dos 7 a 1, somado ao maior escândalo de corrupção que o futebol já viu e que atingiu os principais dirigentes do futebol brasileiro e mundial em 2015, no caso “Fifagate”.

Desmoralizado, dentro e fora do campo, nosso futebol se apequenou. A gravidade da crise não foi logo percebida, em toda sua dimensão, porque o Rio 2016 serviu em grande medida para tirar muito do foco da crise pós-Copa.

Enquanto o foco da mídia e da população se voltava para os Jogos Olímpicos do Rio, todos os números do nosso futebol caíam. Público nos estádios, patrocinadores e audiência na TV refletiam o desencanto dos fãs com o esporte. De repente, o futebol brasileiro se fragilizou dentro e fora do campo como nunca.

Neste cenário de terra arrasada, a crise do pós-2014 só não foi maior por causa da entrada repentina da Caixa. Entre 2014 a 2018, a Caixa chegou a patrocinar 35 clubes por todo o país. Esse dinheiro acabou atrasando a necessária e inevitável busca pela eficiência, transparência e boa gestão de muitos clubes.

A realidade é que, por muitos anos, os clubes tiveram dinheiro fácil e farto, muitas vezes sem grandes contrapartidas. Isso ajudou a perpetuar a gestão amadora.  Enquanto esse ecossistema resistia, os clubes também resistiam em se modernizar. Mas, num espaço de poucos anos, tudo mudou.

O dinheiro da TV diminuiu e passou a depender, em parte, do desempenho esportivo. Ao mesmo tempo, fornecedores de material passaram a impor um modelo de parceria. E a saída da Caixa gerou um mercado comprador onde o valor dos patrocínios baixou, e as contrapartidas aumentaram.

De repente, o modelo que sustentou, por décadas, a gestão associativa amadora dos clubes ruiu. E a diferença de performance, dentro e fora dos gramados, entre os clubes com gestão eficiente e os clubes sem ela ficou grande demais para não ser percebida, principalmente pelos torcedores.

Dados de nosso monitoramento de mídias sociais dos torcedores brasileiros mostram que a cada ano cresce o percentual dos posts que comentam sobre gestão. Em 2019 esse percentual passou de 20%. Há 3 anos atrás esse número não chegava a 1%.

Este ano será lembrado como aquele em que o torcedor finalmente aprendeu que gestão eficiente traz resultado. Isso é o passo fundamental no processo de profissionalização do futebol brasileiro. Foi a Maior Vitória do Futebol Brasileiro em 2019.

José Colagrossi – formado em Marketing pela Fairleigh Dickinson University e
MBA pela Columbia University. Atualmente é diretor executivo do Ibope Repucom.

 

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