
Comunidades de fundo e fecho de pasto do oeste da Bahia intensificam a luta para preservar seus territórios diante do avanço do agronegócio. Segundo moradores, cerca de 97% das áreas tradicionais foram tomadas por grileiros, fazendeiros e grandes empresas, restando apenas fragmentos marcados por conflitos e ameaças constantes.
Como forma de resistência, agricultores elaboraram um mapa detalhado com a localização de rios, áreas de uso coletivo, pontos de grilagem, nascentes mortas e estruturas tradicionais. O documento funciona como instrumento de memória, denúncia e apoio aos processos de reconhecimento e regularização fundiária. A iniciativa contou com apoio do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), que atua há décadas no fortalecimento de comunidades tradicionais.
As comunidades de fundo e fecho de pasto têm séculos de existência e se caracterizam pelo uso compartilhado da terra, especialmente para criação de gado em regime de circulação livre pelo Cerrado. Os fechos costumam ficar a dezenas de quilômetros das comunidades e incluem estruturas como currais, ranchos e cercas construídas coletivamente ao longo de gerações.
Com a expansão acelerada das lavouras, especialmente nas áreas que integram o MATOPIBA, a pressão sobre esses territórios aumentou. Relatórios recentes apontam desmatamento, uso intensivo de agrotóxicos, expulsão de famílias, ameaças de grupos armados e morte de nascentes. Em Correntina, por exemplo, a área plantada com soja praticamente dobrou em dez anos, enquanto cursos d’água sofreram degradação severa.
O automapeamento identificou 69 nascentes protegidas por famílias fecheiras, fundamentais para abastecer rios como Correntina, Formoso e Arrojado, que alimentam o rio Corrente, afluente do São Francisco. Também foram identificados 19 pontos de conflito envolvendo grilagem e disputas territoriais. A escassez de água tornou-se um problema crítico, reforçado por episódios como a Revolta de Correntina, em 2017.
O mapa foi apresentado na COP30, em Belém, como parte das discussões sobre clima, reforma agrária e preservação ambiental. A ação evidencia o papel das comunidades tradicionais na conservação do Cerrado, produção sustentável de alimentos e manutenção da biodiversidade.
O Incra informou que utilizará o material no recadastramento das famílias tradicionais, etapa necessária para a concessão de crédito e reconhecimento formal dos territórios.
O processo de automapeamento ocorreu em três etapas, com a participação de 32 representantes de 16 territórios. Após reuniões para definição de limites e elementos estratégicos, os mapas foram desenhados coletivamente e validados pelas comunidades. O relatório destaca que os dados representam apenas parte da realidade, já que nem todos os grupos conseguiram participar.
O movimento de resistência dessas comunidades reforça a importância da proteção territorial como estratégia de sobrevivência e preservação cultural, diante de um cenário de expansão agressiva do agronegócio e crescente pressão sobre os bens naturais do Cerrado.
