O Cerrado brasileiro, conhecido como o “coração aquático do Brasil” por abrigar as nascentes de oito das doze grandes regiões hidrográficas do país, enfrenta uma crise hídrica sem precedentes. Uma análise inédita do projeto “Cerrado – O Elo Sagrado das Águas do Brasil”, da Ambiental Media, revelou que o bioma perde o equivalente a 30 piscinas olímpicas de água por minuto, impactando severamente a Bacia do Rio São Francisco.

Com base em dados da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e do MapBiomas, o estudo mostra que a expansão desordenada do agronegócio exportador, aliada às mudanças climáticas, é a principal causa desse colapso hídrico. Entre as seis bacias analisadas — Araguaia, Paraná, Parnaíba, São Francisco, Taquari e Tocantins — a do São Francisco é a mais prejudicada.

Principais impactos na Bacia do São Francisco

  • Redução de 50% na vazão mínima de segurança (Q90): de 823 m³/s na década de 1970 para 414 m³/s entre 2012 e 2021.
  • Explosão da soja: aumento de 7.082% na área de cultivo na bacia.
  • Perda de 20% da vegetação nativa.
  • Queda de 28% na pluviosidade e aumento de 11% na evapotranspiração potencial.
  • Poluição crescente: 50,8% das amostras do Rio das Velhas e 38,1% do São Francisco apresentam níveis de poluentes acima do permitido.

A degradação ambiental reduz a capacidade de infiltração da água no solo, afetando a recarga dos aquíferos e a vazão dos rios durante os períodos secos. Segundo o geógrafo Yuri Salmona, o cenário poderá piorar: uma pesquisa de 2022 prevê a perda de 34% do volume de água do Cerrado até 2050, sendo 56% devido ao desmatamento e uso do solo e 44% às mudanças climáticas.

Situação crítica no Oeste da Bahia

A região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), especialmente o Oeste baiano, concentra os maiores impactos do desmatamento no Cerrado. Em 2024, a área representou 82% de toda a vegetação nativa perdida no bioma.

O mapeamento “A Morte das Águas no Oeste da Bahia”, conduzido por entidades como a Pastoral do Meio Ambiente e a Comissão Pastoral da Terra, identificou mais de 3 mil trechos de rios secos nas sub-bacias dos rios Corrente e Carinhanha — afluentes diretos do São Francisco — totalizando 7.120 km de “águas mortas”.

O professor Luís Gustavo, da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB), afirma que os rios da região apresentam “reduções gritantes” de vazão desde os anos 1980, coincidindo com a intensificação do desmatamento e da irrigação. Ele destaca que a substituição da vegetação nativa reduz drasticamente a recarga hídrica e aumenta a evapotranspiração, comprometendo a sustentabilidade do Velho Chico.

Preocupação com cortes orçamentários

Marcus Vinicius Polignano, vice-presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, alerta para os cortes de verbas destinados à ANA. Esses recursos são essenciais para projetos de saneamento, recuperação de áreas degradadas e obras de revitalização. Para ele, retirar esse financiamento compromete a gestão da bacia e torna inviável qualquer plano de desenvolvimento sustentável, como a criação de uma hidrovia.

Polignano ressalta que, sem revitalização e proteção do Cerrado, o São Francisco corre o risco de se tornar inviável como fonte de água e desenvolvimento para o país.

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